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Vai chover

E nesses dias nada dará certo

Tão molhados

Tudo parece desandar

Não era pra ser

Evaporar com a chuva

Sumir

Mas a cada gota caindo do céu

Uma nova esperança vem vindo

Lá de longe

De mais além

Do que possa compreender

Nem guarda chuva ou temporal

Vão impedir

A chuva vai cair

Você de me achar

Eu de te encontrar

E não é para estragar

O que vem

Tem sentido de pureza

Vem pra lavar

Reforçar

Purificar

Unir

Darei as mãos

Correremos na chuva

Vou esbarrar em você

Tropeçar no carinho

Chutar a poça de lama

Cair em seus braços

E assim

Enfim

Serei como a chuva.

Certo dia você acorda disposta a mudar. Levanta cedo, se arruma, vai ao salão e corta a franja. Quando termina, se olha no espelho e fica pensando que talvez a mudança não tenha ficado tãããão boa assim. Na hora o espelho aponta que as tesouradas afiadas da cabeleireira que cortou cabelo demais onde não deveria talvez não tenham sido aprovadas pelo êxtase da inovação.

Intrigada com o novo visual, em casa pergunta à mãe, que, com medo de estragar a empolgação do novo corte, diz que o cabelo "ficou ótimo, até melhor que antes!". Depois pergunta ao namorado. Com receio de dizer a resposta errada (ele: “ficou ótimo, melhor que antes!” ela: “então antes estava ruim?” OU ele: “ah, não ficou tão bom, eu preferia o outro...” ela: “então quer dizer que você me acha feia agora?”), o rapaz desconversa e diz que adora todas as versões dela (mesmo que no fundo ache que ela ficava bem melhor sem essa franja inspirada na Tainá amazônica).

Quando já estava quase se convencendo de que talvez a estranheza do corte seja só falta de costume, seu sobrinho aponta o dedo indicador para a franja perturbadora e rapidamente até demais grita “CREDO, que feio!!”. Pronto. O comentário mais sincero e pertinente. O comentário que lhe convenceu a prender a franja para cima e esperar ansiosamente até o cabelo crescer novamente.

Diante dessa situação parou para pensar no porquê das “mentiras” anteriores. A mãe não queria chateá-la, o namorado não queria contrariá-la. Pequenas omissões, grandes intenções. Só a criança, de fato, livre de qualquer censura ou pudor, teve coragem de dizer o que achou do novo corte de cabelo.

A questão é que vivemos nos poupando de dizer as coisas como elas são ou como pensamos por causa de medos e receios. Umas vezes para facilitar a convivência outras para amenizar as consequências. Na realidade nos esquecemos que dizer a verdade também é bom, por mais que desagrade ou doa.


Todos podem te ver, ouvir, entender, desde que você irradie sinceridade naquilo que diz ou faz. Por mais que a verdade seja a linguagem universal, alguns esquecem que é permitido e necessário usá-la. E diante da história da franja da menina, permito-me dizer que sinceridade virou artigo de luxo.

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© 2026 por Duana Centenaro.

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