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Um dia todo trancado, longe das luzes do sol. No quarto escuro pensou: afinal o que é fracasso? Poderia perguntar sobre o sucesso, mas essa realidade não lhe pertencia, nem nos seus mais lindos sonhos. Não que o sucesso algum dia tivesse sido desejado, longe disso. Lá fora o vento frio e cortante sussurrava os bons pensamentos, enquanto a chuva constante e instável lembrava que eles não durariam muito.

O fracasso, o desamor, as desventuras, esses sim eram seus. Sua posse. Talvez a única coisa que tenha conquistado. Era disso que se orgulhava. Vivia em busca do que fazia viver, das cicatrizes abertas, das feridas oprimidas, da carne viva.

Seu sonho era que a vida fosse tão fracassada a ponto de se transformar em uma boa história, virar um roteiro de cinema, ser esquecido na memória de todos, para que depois de um tempo, dez anos ou mais, algum jovem tolo e sonhador pudesse vê-la e sentir-se inspirado a ser alguém. E assim se faz o fracasso.

Queria poder dizer frases de efeito, citar autores, bem como o personagem culto e beberrão do filme. Mas o máximo que consegue lembrar-se é de que não gostava tanto assim de livros. E quanto a casa suja e cheia de garrafas de bebidas de todos os tipos, o máximo que conseguira era um quartinho e uns litros de água deixados com esmero na pia. Mais um fracasso.

Queria a sabedoria da vida, as filosofias de bar, o encontro com o desconhecido, as conversas casuais, o amor por acaso. Mas nem saía de casa.

Queria vagar por aí, em busca de histórias. Queria ver as invisibilidades dessa vida, encontrar o que todos descartam, valorizar o que é desprezado, ajudar ainda que atrapalhasse. Mão não tem dinheiro nem para pegar um ônibus para começar sua volta ao mundo.

Queria beber palavras, soltar verdades. Ter os devaneios do louco escritor, perdido entre um gole e outro, expelindo sentimentos, os mais belos e vorazes profanados. Os piores e incomuns. O real e o fracasso. Mas só consegue pensar em dormir.

Se você quer vive a realidade, me desculpe. Não seria capaz de aceitar nada que fosse palpável, passível de ser vivido. Nada que fosse. Não vivera pelo que via, mas pelas mazelas da imaginação. Nesse território é rei, homem, santo, louco, é deus. É. E pode. Alcançou o fracasso. Eis a realização pessoal.

Sempre imagino a vida como um filme. Ao contrário do que normalmente acontece, dessa vez os olhos estão voltados para mim. Pela primeira vez, deixo de observar a vida passar e sou a protagonista da minha história, como se antes disso ela nunca tivesse existido. Mas não combina comigo uma “mocinha” frágil, indefesa ou imatura. Na verdade, insegura, talvez.


Como se fosse fácil, saí da zona de conforto, deixei para trás o que já não acrescentava, coloquei uma mochila nas costas e vim atrás de um sonho. Palavras, sempre elas. Com três malas cheias de sonhos e novas expectativas cheguei ao lugar mais devastador que alguém pode chegar: a realidade.


Nesse momento, o sonho, que antes parecia tão perto, agora se distancia, a medida que quilômetros de distâncias foram deixados para atrás. No entanto, nem as dificuldades me fazem desistir. A vontade de seguir em frente é ainda maior. Sempre maior. Porque já não sou mais eu. As palavras que vivem em mim. São elas que me guiam pelas ruas perigosas, me fazem aguentar o frio da madrugada ou suportar a dor da saudade, que sempre me faz companhia.


Se o agora fosse um filme, essa seria a hora em que a protagonista chega em um local completamente novo e, embora devastada pela imensidão de dificuldades e falsos acertos, sente lá no seu mais profundo íntimo, que o sonho vai se realizar. Não que isso seja tão ficção assim. Na verdade, é a mais pura realidade.


Você pode me chamar de tola... Ou louca, como quiser. Talvez esteja certo. Quem sabe esse pensamento profundo é só um mecanismo de autodefesa, daqueles que faz nossa consciência agir como se não soubesse do que as coisas se tratam realmente. Mas sonho nenhum anula dificuldade. Nunca anulou. Se fosse assim, não existiria gente infeliz ou insatisfeita.


Meu filme não tem um fim. Ainda. (Nem terá, mesmo que um dia esse sonho se realize. Porque sonhos são assim, nunca se suprem, só aumentam). Este é um sonho em construção, um roteiro adaptado, que não faz nem ideia de quantas vidas pode alcançar. Mas deseja profundamente que se espalhe. Ainda que não brilhe tanto, só de estar aqui já vale a pena o sonho. Meu desejo é que essas palavras sejam lidas, criem vidas e inspirem tantos outros roteiros sonhadores e inacabados por ai.

Que não cessem as vidas, que perdurem os sonhos...

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© 2026 por Duana Centenaro.

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