Sobre dividir o macarrão
- 22 de set. de 2020
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Era uma noite de domingo. Estava com fome. Tinha muita chuva e estava sem carro. Fui obrigada a recorrer a algum delivery.
- O macarrão é spaguetti. Molho vermelho. Recheio de frango, bacon e queijo.
- Qual tamanho? Temos inteiro, para duas pessoas e meio, para uma pessoa.
Enquanto o atendente me explicava sobre a quantidade do macarrão, minha mente voou longe pensando na alegria que deve ser compartilhar um macarrão. Em pensamento, até sorri lembrando a famosa cena d’A dama e o vagabundo.
Dividir o macarrão, agora, significa mais do que se lambuzar na companhia de alguém. É ter uma entrega real, de gostos, alegria, compartilhar o momento. É saber que terá a dificuldade para escolher o sabor, e mesmo depois de tudo ter acabado, alguém terá que lavar a louça suja. É escolher. Mesmo sabendo que o sanduíche seria uma opção mais simples e rápida, ainda assim, optar pelo macarrão.
De repente, enquanto divagava em pensamento, lembrei do início desse pensamento.
- Um meio, por favor.
E depois de ter terminado o pedido, pensei que é preciso coragem para pedir um macarrão médio, para uma pessoa.
Fazer esse pedido é aceitar que você é – ou está – sozinho e precisa fazer alguma coisa. E que assim como comer, existem outras coisas que ninguém pode fazer por você. É assumir o poder. Tornar-se responsável pelo seu destino. Sem precisar ou estar com alguém.
É entender que ninguém é incompleto ou inferior por pedir meio macarrão ou sentar-se sozinho à mesa. Muito pelo contrário. É estar e ser completo em sua própria companhia.
Pensei muito nisso enquanto esperava a encomenda. A realidade é que capricharam tanto na quantia de bacon e frango no meio macarrão que chegou até mim que todos esses pensamentos foram embora. Bom, pelo menos até o próximo pedido...