Os efeitos do que eu não digo
Atualizado: 6 de jan. de 2021
Todos os dias milhares de pesquisadores saem de suas casas dispostos a entender o mundo e encontrar explicações científicas para medidas que tomamos como parte de nós todos os dias.
Certa vez, li um artigo que explicava, por exemplo, porque as mulheres fisiologicamente possuem a necessidade de gastar todo o vocabulário aprendido durante a vida em apenas um dia. Ou em uma DR, se for o caso. Enquanto as mulheres necessitam falar vinte mil palavras, os homens muitas vezes se limitam à sete mil.
Outro dia, enquanto procrastinava pelas redes sociais, vi uma ilustração interessante. Um velório e o diálogo entre dois homens. “Morreu de que?” perguntou um olhando para o caixão, “Engasgado com as palavras que nunca disse”, respondeu o outro. Nesse momento me lembrei da pesquisa. E da inconsistência dos fatos. E da nossa vulnerabilidade humana.
Todos temos sempre a oportunidade de dizer, falar, expressar, comunicar, reclamar, exigir, expor, argumentar mas nem sempre o fazemos. Ora por não saber, ora por não querer.
As pesquisas – e pessoas do nosso cotidiano – mostram os efeitos disso. O termo queridinho da vez são as doenças psicossomáticas, que apresentam sintomas físicos e reais para doenças que tem seu princípio na mente. Causadas pelo sistema nervoso, exercem ação na saúde do corpo e da mente de maneira intensa, o que explica a grande incidência de pessoas com gastrite nervosa, depressão, dores de cabeça intensa ou ainda recorrendo ao suicídio nos casos mais extremos, quando a mente não conseguiu suportar a pressão. E tudo isso graças ao conjunto de efeitos da nossa contenção, da falta de comunicação - inclusive aquela que não acontece só com palavras.
Não passamos de um amontoado de palavras não ditas, da raiva que não expressamos, da alegria contida ou das emoções lacradas em algum lugar. Elas não desaparecem, só se escondem e continuam a guardar um lugar especial por ali. Às vezes, remoendo o corpo, em forma de doenças. Às vezes, perturbando o coração, em forma de desassossego ou insatisfação.
Quem deixa de falar, aos poucos vai perdendo o jeito, o senso, a razão, a emoção, deixa de sentir. Se eu pudesse dar um conselho hoje, diria: FALE MAIS. Independente da motivação. Fale sempre. Criança, jovem ou adulto. Homem ou mulher. Seja quem for. Fale com olhos, boca, braços, corpo inteiro. Fale com o coração. Fale para que quando as palavras saírem, não sejam reflexos vazios, mas a emissão de tudo aquilo que deseja que os outros sintam também. Fale para que seus atos revelem suas intenções. Fale para que possa continuar sempre falando. E existindo.