Quantas lembranças cabem em uma lágrima?
- 2 de set. de 2020
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Não consegui. Naquela quarta-feira saí mais cedo. A gravata me apertava, o calor incomodava, os números, notas fiscais, tabelas, nada mais fazia sentido. Não adiantava insistir. Tudo o que eu queria era fugir.
Pra longe. Pro mundo. Qualquer lugar. Sumir. Buscar. Qualquer coisa. Tentar respirar. Precisava voar, longe, alto, forte, ser tomado pelo vento até que o ar ocupasse todos os lugares vazios que haviam ficado. Mas sou humano, sinto, sofro e não tenho asas.
Sai sem rumo. Na verdade, sempre soube pra onde estava indo. É involuntário. Faz parte de mim. Do que eu ainda sou. Do que eu queria ser. Do que eu fui. Serei?
Por ironia da vida, o mesmo lugar onde tudo se fez dor é o único onde eu ainda encontro a paz que a tristeza me roubou.
Paro no meio do caminho. Parece loucura ir lá mais uma vez. Passam-se dias, semanas, meses e nada mudou. Se o sofrimento é opcional, neste exato momento eu estava optando pro cravá-lo em meu peito, sabendo que seria difícil sair dali. Sigo em frente. Não há nada a fazer, voltar atrás não adiantaria. Qualquer vestígio de vida é melhor do que ficar preso a essa dor sozinho.
Cheguei. A melancolia e solidão me fazem pensar em você. Em como deveria ser. Ninguém pode saber o que acontecerá no futuro, mas certamente o que imaginei para a gente não era isso. Não saio do carro. Não tenho coragem. Está começando a escurecer e quando cai a noite entro em um memorial interno de dores e cores, difícil de explicar, mais difícil ainda de sentir.
Ao mesmo tempo em que a dor me apunhala com lembranças revividas, traz um copo de água e me faz colo. Sento ao seu lado, e de longe fico a observar.
Aquele velho chalé. Azul e branco. Nem a grama que um dia fora verde, tão verde quanto os olhos que a cultivaram, faz questão de esquecer as lembranças que tivera. Vejo você implicando porque eu, sempre distraído, esqueci o sapato novo do lado de fora da porta. Ou então, quando brigava com o cachorro, por causa da mania de fazer enormes buracos nas roseiras que você demorou tanto a fazer vingar. Abro um sorriso. Ah, as roseiras... Flor no jardim, na sala, na cozinha. Você dizia que sem flores uma casa não tinha vida. Hoje eu digo que uma casa sem flores não poderia ser o seu lar. O balanço ao lado da casa, a sacada, a cerca de madeira, o enfeite de Natal na porta, assim como você, nada mais está ali... Mas tudo vem tão real que eu consigo ver, sentir, quase tocar como num sonho ou quem sabe num filme já que talvez assim fosse mais fácil tornar realidade.
Aquele velho chalé... Quantas histórias, quantos sorrisos, quantos momentos, quanta vida esteve ali. Já não existe mais. Hoje não passa de um velho chalé, com uma placa de vende-se pregada na cerca.
Tenho a impressão que se o chalé fosse uma pessoa, seria aquela por quem os outros passam, olham e sentem pena. Tudo não passa de um interesse superficial, como se ninguém estivesse disposto a adquirir, em troca de uma amizade verdadeira, um fardo tão pesado quanto a bagagem emocional carregada ali. Na verdade, se esse chalé fosse uma pessoa, seria alguém como eu.
E como num estalo, volto à realidade. As lágrimas se misturam com sorrisos e lembranças e sinto como se, ao meu lado, quem estivesse não fosse a dor da partida, mas a sua presença.
Refaço o caminho de volta. Não importa onde estou indo, pouco vejo, sou guiado. Volto com a cabeça nas nuvens e o coração ao seu lado. Nesse momento, não tenho dúvidas, ganhei minhas asas.